Um das coisas mais bonitas que levei do curso de Letras foi a sementinha que minha professora de literatura russa, Denise, plantou no meu coração.

Estávamos em 2014, o ano da formatura. Eu tentava juntar dinheiro desesperadamente com o famigerado Café dos Formandos. Ao mesmo tempo, cursava as últimas disciplinas (descobri que só nós falamos cadeiras por aqui), talvez no piloto automático, porque queria muito fechar aquele capítulo. Uma delas, Literatura russa em tradução, eu escolhera pelo fato de ser do grupo de disciplinas alternativas obrigatórias do curso. Não imaginava que pudesse ser bom, uma vez que todas as minhas experiências com literatura na universidade me fizeram odiar tudo o que meus professores me apresentavam.

E a surpresa é que foi tão bom que a sementinha da literatura russa foi plantada em mim e desde então deu muitos frutos. O último deles foi o término de O túmulo de Lênin, um calhamaço de mais de 700 páginas sobre a queda da União Soviética. E se não fosse pela Denise, jamais teria ido atrás desse livro, muito menos de todos os outros autores russos que li até hoje.


Voltando ao passado, cursar literatura russa foi um dos melhores presentes que eu poderia ter me dado de final de graduação. Me fez redescobrir o amor pela literatura, por aquele sentimento que nenhum professor conseguia mais despertar em mim: a curiosidade. Uma curiosidade sem aquele pedantismo característico de professores que cospem em Harry Potter ou Paulo Coelho/Rabbit para aparecer, algo que vivenciei muitas vezes na graduação. A Denise era diferente. Ela tinha um jeito calmo e sereno de nos apresentar a obra, sem nos forçar a gostar dela porque era do cânone. O conhecimento dela sobre a Rússia era incrível. E além de tudo, ela era uma tradutora fantástica, que traduziu alguns títulos da Editora 34. Cursar literatura russa com a Denise foi meu sonho de princesa de último semestre.

A parte de literatura russa abordada nessa disciplina era século XIX e XX, puxando para os escritores dissidentes da União Soviética. Não dei muita bola para o século XIX, mas quando chegamos aos contos sobre os campos de trabalho na União Soviética, os gulags, eu surtei. Surtei porque ler esses escritos foi uma das experiências literárias mais intensas da minha vida. Jamais esquecerei a imagem do prisioneiro com escorbuto, que mordia um pão e suas gengivas sangravam, ou então o conto sobre o homem que enfrentava o dilema de contar ou não que seu parceiro de cela estava morto. Se ele não contasse, poderia receber mais pão. Sentia arrepios ao ler, tinha dificuldade em segurar o papel, pois essas imagens se projetavam de maneira muito nítida na minha mente. Era difícil manter-me indiferente a elas. Eu estava apaixonada por aqueles relatos, embora isso seja algo estranho de se dizer.

Desde então, procuro aumentar meu leque sobre a União Soviética. Sem querer acabei caindo em um dos livros traduzidos por Denise, Os contos de Kolimá, de Varlam Chalámov. Ela me falava muito desse cara, até que um dia ele me sorriu na feira do livro da USP, e eu levei o Volume 1 e 2 dessa saga sobre os gulags para casa. 

Foi uma porrada ainda maior.

Ler Chalámov foi como tomar um soco no estômago atrás do outro. Com ele, consegui ter uma dimensão da máquina que eram esses campos de trabalho, como eles tiravam a dignidade de uma pessoa. Ninguém era digno ali. Os prisioneiros se comportavam como animais, e sentimentos eram lenda. O único sentimento era o de sobrevivência. Chalámov foi preso duas vezes e sobreviveu a essas penas gigantescas (uma delas tinha 20 anos senão me engano). Ele escreveu sete volumes de contos sobre essa época em Magadan, a cidade do campo de trabalho na qual ficara.

Varlam Chalámov.


Um ano se passou, li minha primeira autora russa, Svetlana Alexievich, e seu A guerra não tem rosto de mulher. Mais socos. Acho que a regra em literatura para mim é tomar porrada, se isso não acontece, não consigo me divertir. É a única explicação. Depois dessa porradona, eu parei. Tomei porrada de outros livros históricos e até hoje estou atirada no ringue. Eu simplesmente não tenho como escrever sobre algumas coisas que li tamanho o impacto que tiveram sobre mim.

E eis que chegamos em O túmulo de Lênin. Como namorei esse livro, Meu Deus. Foram três meses intensos de namoro até que eu tomasse coragem para pedi-lo em casamento na livraria. É claro que esse acontecimento foi recheado de emoção. No dia em que decidi formalizar o pedido, o meu amado não estava me esperando na livraria perto de onde eu estava. Peguei um ônibus e atravessei a cidade para encontrá-lo. Na segunda livraria estava esgotado também. Na terceira nos reencontramos, casamos e o carreguei nos meus braços, direto para casa. Foi como aquela canção de Jeanne Moreau (vocês realmente acharam que eu perderia a chance de citá-la?):

On s'est connu, on s'est reconnu/on s'est perdu de vue/on s'est retrouvé

Na verdade, já tinha começado a ler o livro no Kindle, em inglês. Por isso, a vontade de comprá-lo foi aumentando. A edição em português era tão bonita, a fonte era tão bonita, não tinha como resistir. 

O livro, como disse anteriormente, versa sobre a queda da URSS. O autor, David Remnick, passou seis anos na Rússia como repórter do Washington Post (o mesmo jornal do caso Watergate, adoro) entrevistando políticos, cidadãos e escrevendo sobre o turbilhão que a União Soviética vivia. Jornalismo investigativo, né, bebês. Meus colegas historiadores irão me matar por ler esse tipo de literatura, por causa da questão das fontes, mas a verdade é que David dá uma chinelada na nossa cara com todos os relatos e todas as situações que nos conta.

Foi difícil, como uma pessoa de esquerda e que acredita no socialismo, ler esse livro. Você vê simplesmente que o fã clube estragou algo que em teoria era muito bom. Os expurgos de Stalin, as violentas políticas de coletivização e a corrupção dentro do Partido Comunista arruinaram o fandom do socialismo na Rússia. No entanto, acredito que precisamos olhar para tudo o que aconteceu por lá, para os campos de trabalho e as mortes e fazer uma crítica. Geralmente descemos o pau no capitalismo, mas o socialismo também teve seus erros. E quando digo isso, não estou passando a mão na cabeça do capitalismo, mas a verdade é que a União Soviética teve momentos muito punks que fazem a gente questionar até que ponto o fandom do socialismo foi corrompido por lá.

Exemplo de um gulag.

Segundo Remnick, o sistema estava corrompido até a raiz dos cabelos. Veja bem, o lema era "igualdade na pobreza", mas os políticos do Partido Comunista tinham dachas (tipo de residência russa meio chique) com água encanada. Os cidadãos passavam fome enquanto os fodões do regime tinham direito à comida decente. Os mineiros na Sibéria não tinham sabão para se lavar. Faltava absolutamente tudo. Todas as coisas que julgamos banais, água encanada, quartos e afins... Coisas com as quais o mundo capitalista está mais do que acostumado.

Os acontecimentos durante a perestroika e a glasnost são dignos de um romance policial, cheio de reviravoltas. Começamos com o "mocinho", o nosso salvador Gorbáchov, um reformista, a maior autoridade do Partido Comunista. Ele queria implementar o que chamava de "socialismo com face humana", mas acabou consumido pelos próprios fantasmas, pela dificuldade de dizer adeus de verdade ao que todos conheciam até aquele momento. Na visão de Remnick, foi isso o que levou a sua ruína, culminando no golpe de Estado de três dias dado pelos linha-dura do partido. Eles aproveitaram que Gorbáchov viajou com a família para a Crimeia e tomaram o poder em Moscou. As linhas telefônicas foram cortadas, ele ficou incomunicável. Mais romance policial impossível. E isso que nem falamos sobre a KGB.

Mais do que a narrativa em estilo romance policial, é muito interessante observar que o livro nos coloca diante de uma discussão sobre narrativas históricas. Havia duas narrativas na Rússia dos anos 80: a de Stalin e a dos que ousavam questionar o socialismo. Qual seria a vencedora? Durante o livro, é como se estivéssemos presenciando uma brincadeira de cabo de guerra, cada lado tentando puxar a corda para ganhar a disputa. De um lado tentava-se invalidar os escritores dissidentes como Soljetnítsin; de outro, honrar os feitos da revolução. Quando, em um determinado momento, um padre (lembrando que ter uma religião na União Soviética era proibido) é assassinado a machadadas, temos uma narrativa sendo reivindicada. O mesmo machado com o qual Raskolnikov matou a velha em Crime e castigo, o maior símbolo da revolta. Eram os linha-dura dando o seguinte recado: "Não vamos deixar vocês acabarem com a nossa União Soviética, com a maneira como a vemos. O fã clube de vocês não vai estragar os efeitos de Lênin e Stalin."

Como Soljetnísin bem pontuou:

O relógio do comunismo bateu sua hora final. Mas a estrutura concreta não desmoronou totalmente. Em vez de nos libertar, podemos ser esmagados sob os escombros.

De certa forma os russos foram esmagados pelos escombros do comunismo, pelos restos de Magadan, a cidade onde outrora houvera um dos maiores campos de trabalho da Rússia. Os escombros desse fandom socialista que, de alguma forma, deu errado. Eles entraram na era capitalista perdidos, tão perdidos quanto o próprio Gorbáchov estava na época da perestroika

Passei um nervoso danado lendo, querendo jogar o livro para o alto. Como, eu pensava, pode ter dado tão ruim? Por quê? Ainda não tenho essa resposta, talvez me falte a bagagem histórica para entender melhor tudo isso. Ficou um gosto amargo na boca misturado à sensação de que preciso estudar a revolução de 1917 para conseguir fazer uma ponte que faça sentido para mim.

Ainda assim, não me arrependo de ter embarcado nessa viagem pela Rússia. Serei sempre grata à Denise por ter me aberto as portas para conhecer esse país tão fascinante que é a Rússia.


Um Comentário

  1. Amiga, você escreve muito bem!
    Dito isso: leia Milan Kundera. Ele é um autor tcheco que acabou indo pra o exílio na França e escrevendo sobre os horrores do comunismo na República Tcheca. Todos os seus livros falam um pouquinho disso, mas dois dos meus preferidos são A insustentável leveza do ser e O livro do riso e do esquecimento.

    Quanto ao que tu leu: quero muito ler esse livro desde que tomei conhecimento da existência dele. Eu nunca tive disciplina de Literatura Russa (mas queria muito!), porém sempre fui apaixonada pela história da Rússia - talvez por ter antepassados de lá e sempre ter ouvido histórias em casa - e logo que comecei a frequentar bibliotecas já fui procurar livrinhos russos pra ler. Só que incrivelmente não li muito o que poderia se encaixar em jornalismo literário - o que é louco demais, já que curso Jornalismo, risos -, li mais literatura mesmo. Mas o pouco que li de relatos históricos dos tempos de gulag me deixaram sem dormir por algum tempo. É realmente um soco no estômago atrás do outro.

    Não sei como algo que era pra ser tão bom deu tão errado. Gostaria de poder dizer como, mas acho que sempre que tiver pessoas a chance de dar ruim é grande porque AMBIÇÃO, não é mesmo. Não basta ter poder: há de se exercê-lo de forma que todos o temam como absoluto. Babaquice isso. Mas enfim.

    Bacana que cê tá participando do BEDA! Vou te colocar no meu blogroll pra não esquecer de acompanhar.

    ;*

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